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terça-feira, fevereiro 08, 2011

"Quem mexeu no meu queijo?"

" Hem, Haw, Scurry e Sniff saem à procura do queijo.
Após longas caminhadas pelo labirinto eles encontram o Posto C de queijo. Nos dias seguintes, os ratinhos Sniff e Scurry passam a acordar cedinho e a correr pelo labirinto sempre no mesmo caminho até o posto C. Já os homenzinhos Hem e Haw acordavam sem muita pressa e caminhavam lentamente em direcção ao Posto C para apreciar o queijo. Depois de algum tempo, o queijo no Posto C acaba, Hem e Haw ficam muito decepcionados, Hem não aceita de maneira alguma aquilo. Já Sniff que previra aquilo, juntou-se a Scurry e juntos foram procurar um novo queijo.
Hem e Haw continuaram a visitar o Posto C durante mais uns dias com a esperança de ver o queijo de volta. Depois de alguns dias Haw decide enfrentar a situação e passa a querer procurar um novo queijo no labirinto, ao contrário de Hem, que continuava insistindo em ficar no Posto C.
Haw prepara-se para sair do Posto C e começa uma longa jornada pelo labirinto. Enquanto isso Sniff e Scurry encontram o Posto N, com muito queijo. Haw enfrenta seus medos e inseguranças dentro do labirinto e vai aprendendo com a sua longa jornada até que chega ao Posto N e encontra-se com os ratinhos Sniff e Scurry. "

Autor Spencer Johnson Género Motivação (psicologia) Editora Putnam Adult Ano 1998

"Esta fábula simples e criativa ensina-nos que tudo muda e que as fórmulas que nos foram úteis em dado momento podem tornar-se obsoletas. Os seus ensinamentos aplicam-se a todos os aspectos da vida: o «queijo» desta história representa qualquer coisa que se queira alcançar – a felicidade, o trabalho, o dinheiro, o amor – e o labirinto é o mundo real, com zonas desconhecidas e perigosas, becos sem saída e recantos obscuros… e também casas cheias de queijo! Através desta sensata parábola, "Quem Mexeu no Meu Queijo?" oferece-nos ensinamentos valiosos para compreender um mundo em constante mudança num ritmo cada vez mais acelerado."

Mais de um ano depois, voltei a ter vontade de escrever.
Neste ano o meu queijo foi mexido várias vezes na minha vida pessoal e está agora a ser mexido na vida profissional.

Li este livro em 2003, tal como o de sua continuação, "Fui eu que mexi no teu queijo" e depositei-os na minha cache "MAntune's Book Box" para que fosse útil a mais alguém.
Quando li estes livros, comecei logo a idealizar um projecto a médio prazo - aquele em que estou agora envolvido e que é o de me licenciar na área em que exerço a minha profissão, Informática de Gestão.
Estou a tentar ser como o Haw.


Infelizmente, a vida não nos dá tréguas e não espera que estejamos capazes de enfrentar os desafios calmamente, um de cada vez. Ainda estou a curar as feridas da mexida no meu queijo na vida pessoal e já tenho alguém a mexer no queijo da minha vida profissional.
Comecei a minha actual carreira profissional há muito tempo. Evoluí como Analista-programador em linguagens de programação pertencentes ao paradigma imperativo - o computador executa as instruções pela ordem que o programador define no algoritmo - e em sistemas ERP, em empresas do sector industrial. MRP II não tem muitos segredos para mim.


No curso em que estou no 2º ano, com 13 em 15 das disciplinas/cadeiras/unidades curriculares completadas, tenho aprendido linguagens de programação pertencentes ao paradigma orientado a objectos (C, C# e Java).
Agora, a empresa onde trabalho decidiu mudar de ERP. Estávamos com o BPCS, onde serei talvez um dos últimos Moicanos em Portugal e vamos para o SAP. Tenho que aprender também o ABAP Objects.
Os conhecimentos (AS400, RPG IV, AS/SET e BPCS) que me possibilitaram o actual emprego não servirão de muito daqui a 2, 3 anos. Quem sabe, menos...
Felizmente li o livro há alguns anos e a Administração da empresa sabe que não fiquei parado à espera que o queijo reapareça.


Permitirá a crise e a mudança na política do medicamento em Portugal o tempo que preciso para estar pronto quando desligarem o botão no AS400 e no BPCS?

terça-feira, setembro 01, 2009

Crise de valores ou de identidade

Durante a fase de preparação para o exame de acesso +23 ao Ensino Superior desenvolvi vários textos sobre valores, sociedade, cultura, globalização e mass media e que, por me parecerem interessantes, e assim terem sido valorados, os partilho aqui. Foi uma fase de estudo e reflexão que passei durante largas semanas e este foi o resultado. No mundo actual existe uma enorme diversidade de culturas desde as mais avançadas, tendo em consideração que cultura abarca sociedade, nível de avanço tecnológico e bem-estar social, como nos países nórdicos e os anglófonos, passando pelos países moderadamente avançados como os da periferia europeia até aos países menos desenvolvidos ou os mesmos atrasados em termos de desenvolvimento como alguns países do continente Africano. Esta enorme diversidade de culturas ou sociedades manifesta-se igualmente nas características dos seus povos e nos seus usos e costumes dando imagem própria de cada um mas no essencial estes diversos tipos de sociedade dão, julgo eu porque nunca tive contacto directo com elas, também uma imagem das características humanas dos seus povos através de traços e pormenores próprios: abertura e descontracção nas sociedades mais avançadas, tendências fechadas, possessivas e subjugação dos elementos familiares diversos em relação ao chefe de família, nas sociedades mais atrasadas. Apesar, obviamente, destas disparidades, todas estas culturas e sociedades devem ser respeitadas nas suas especificidades e a condição humana dos seus cidadãos deve ser defendida. Aliás, este sentimento de respeitabilidade das sociedades e culturas mais atrasadas assim como da condição humana dos seus cidadãos é, em norma, mais e melhor entendida nas sociedades ditas avançadas ou médias do que nas próprias sociedades atrasadas. Os exemplos são infelizmente inúmeros mas refiro apenas dois: - os gastos com o aniversários do presidente Mugabe em comparação com o estado de subnutrição dos presos de pequeno delito nas pensões do Zimbawbe (notícias na TV em 3/4/2009, no noticiário das 20h00). Chocante. - a exploração selvagem a que as crianças dp Congo são sujeitas para extraírem o minério usado no fabrico de equipamentos electrónicos actuais, fazendo do Congo o principal país exportador deste bem precioso e, consequentemente, daí tirando enormes dividendos à custa dos mineiros escravos. No campo da respeitabilidade das características e especificidades próprias de cada cultura ou povo, não se deve esquecer, contudo, que esse respeito não deve permitir que tudo se faça ao abrigo da defesa dos usos e costumes de cada povo. Por exemplo, não se deverá permitir a um árabe que maltrate uma mulher ocidental porque ela anda na rua com a cara destapada Vivemos num mundo que, contrariamente à sua forma redonda, é muito heterogéneo quanto a condições de vida e de oportunidades dos diferentes povos que o habitam, Os continentes da América do Sul, África e o Sudoeste Asiático parecem ser as áreas do planeta onde as dificuldades são maiores e as desigualdades também, É, também, nessas áreas do globo que vivem ou tentam sobreviver a maior parte dos habitantes do planeta. Em termos gerais ¾ da população mundial não tem acesso ao conhecimento básico, como o saber ler e escrever, e isso contribui em muito para o seu atraso no desenvolvimento social e nas suas condições de vida. Em face destas realidades que são a pobreza e a falta de cultura, as questões morais oi de carácter tendem a ser secundarizadas e, desse modo, os valores a serem esquecidos. Não há condições para questões morais ou culturais quando a batalha mais premente é a da sobrevivência. Nas sociedades mais avançadas e nas organizações de apoio humanitário tenta-se consciencializar os responsáveis a não deixar diluir os valores e as características próprias destes povos ancestrais que são riquíssimos em tradições. Tenta-se simultaneamente alimentar o corpo e dar-lhes condições para que o espírito das novas gerações seja também alimentado para que as culturas e tradições de povos com milhares de anos, como os descendentes dos Incas, dos Maias e, visto recentemente na TV (televisão), dos Irahucas no Peru, poderem retomar os seus hábitos e tradições culturais. É um desafio da humanidade actual, o atenuar das desigualdades entre os que têm tudo e, quiçá, são pobres de espírito, e os que pouco ou nada têm mas são, em grande parte, herdeiros de riquíssimas culturas. Nas sociedades actuais onde o advento da transmissão de conhecimentos e de informação é, cada vez mais, instantâneo, assiste-se à tendência para se considerar a educação como um processo que decorre ao longo da vida devido ao desenvolvimento das sociedades de informação e de conhecimento. Esta nova abordagem da educação e do conhecimento é muito importante porque permitirá o aparecimento de novas gerações mais cultas e preparadas para os novos ritmos da sociedade. O sonho ou projecto de existir uma aprendizagem ao longo de toda a vida para todos tem a ver com a intenção de que seja possível disponibilizar um modelo de educação avançado e completo, para todos as pessoas dos países e sociedades menos desenvolvidas. No campo dos valores, com o avanço das sociedades em direcção à sociedade de conhecimento de novos valores ou conjunto de valores que tendem a descaracterizar as culturas mais antigas e a “uniformizá-las” com outras culturas e povos distantes. Será normal ver-se, nos dias de hoje, um japonês e um americano ou um francês e, porque não dizê-lo, um português apreender os mesmos tiques e vícios das comunicações “sms” (short message system), com o telemóvel, quiçá da mesma marca e modelo. Por fim, em relação aos valores assiste-se ao efeito de criação e reinvenção de novos valores e necessidades para as sociedades actuais em detrimento da manutenção e defesa dos valores antigos. Por exemplo, assiste-se nas famílias actuais ao cada vez menor hábito de se tomarem as refeições em conjunto enquanto se fala e convive em família para, em oposição, se assistir a conviver com a televisão e com os “messengers” electrónicos (programas de computador que permitem diálogos interactivos, escritos, através da internet) para se comunicar com os amigos. Não é pouco frequente ouvir-se dois jovens acabarem uma conversa presencial, dizendo: “depois falamos na net!”. Outro efeito das sociedades de comunicação instantânea a que assistimos nos tempos actuais é ao esforço das gerações mais antigas em transmitir valores e conhecimentos aos mais novos e verificar-se que a receptividade e aprendizagem destes últimos é inferior ao que foi transmitido, perdendo-se assim, gradualmente, algo de valores e conhecimentos na transmissão entre gerações. A humanidade actual tem um enorme desafio a enfrentar, para além da subsistência, que é o da preservação dos seus valores morais e riqueza culturais, especialmente a dos povos em maiores dificuldades. O desafio que se coloca é o de fazer face à erosão da diversidade de línguas e culturas. Para além dos povos referidos no texto anterior, não nos podemos esquecer dos povos da América do Norte, os tradicionais Índios que foram popularizados pelos filmes de “cowboys” mas que, na realidade, ou porque foram aglutinados ou porque foram maltratados, já quase não existem como povos ou sociedades com cultura própria. Mas nem só dos povos antigos e culturas tradicionais as preocupações da humanidade se devem ocupar: não nos esqueçamos das pequenas comunidades, normalmente de regiões específicas e mais afastadas dos grandes centros. Estas comunidades detêm traços culturais e, em alguns casos, linguísticos, muito próprios que devem também ser preservados a par das ajudas para a sua subsistência. Apenas um exemplo em Portugal: as comunidades em redor de Mirandela e o seu dialecto local, o “mirandês”. Em resumo, é necessário cuidar dos valores culturais dos povos em maior dificuldade e com um PIB (Produto interno bruto) mais baixo, de modo a preservar a grande riqueza e variedade de culturas que a humanidade ainda detém. Perante todas as considerações anteriores, poderemos estar, e em certa medida estamos, perante o risco da perda de valores. Mas, com a rápida evolução da Sociedade do Conhecimento e com a rápida disseminação da informação “online”, que permite que as réplicas do recente terramoto na cidade Italiana, Átila, sejam seguidas em directo na televisão, também devemos encarar a realidade de que os valores se vão transformando ou mudando e que novos valores vão aparecendo. Assim, um grande desafio é o da escolha de valores em face à grande diversidade de situações novas que ocorrem nas sociedades. Por exemplo, será um valor a preservar a nova maneira de contacto, a linguagem tipo “sms” tão vulgar entre a juventude actual? Por outro lado será positivo as pessoas estarem cada vez mais a isolar-se e a perder o hábito do convívio pessoal da conversa oral em detrimento da conversa, dita digital? É esta escolha de valores emergentes que deve ser feita pela sociedade actual, especialmente as mais avançadas em termos de informação e comunicação. Para este efeito a troca de conhecimentos é importante para a preservação dos valores e características dos povos e comunidades mais pequenas e sujeitas a influências externas. Os meios de registos actualmente disponíveis como por exemplo os registos audiovisuais e registos informáticos podem ser um precioso auxiliar na preservação desses valores morais e culturais e sua difusão e divulgação através dos mass media (meios de comunicação de massa). Os mass media ou os meios de comunicação de massa são assim designados porque se destinam a uma vasto número de receptores das mensagens ou comunicação que veiculam. Em oposição à comunicação individual ou directa que está presente ao diálogo directo ou por intermédio do telefone, os mass media têm um emissor, normalmente uma equipa de profissionais, e muitos receptores que podem chegar aos milhões. Os mass media mais conhecidos são: a rádio, a televisão, os jornais e revistas e os livros. Ultimamente, nas duas últimas décadas, apareceu um novo veículo de comunicação que incorpora algumas das características dos anteriores meios de comunicação de massa, a internet. Os métodos de difusão da informação são, na generalidade, a escrita nos jornais revistas e livros, a voz na rádio e a imagem e voz na televisão. A informação difundida pelos mass media pode ter duas grandes divisões: a notícia, mera informação, e a cultura se for desenvolvida e aprofundada quanto ao tema. Os mass media, além do papel importante que têm na difusão da informação e cultura, podem também ter outros papéis como o entretenimento e a influência sobre o público a que se destinam. Essa influência pode ser de carácter positivo, como por exemplo, educar as pessoas para correctos hábitos de cidadania ou pode ser de alienação das consciências colectivas levando o público a viver realidades que não são as suas e, assim, a esquecerem-se dos seus reais problemas ou a serem levados a consumir produtos de que realmente não precisam. Os mass media, porque dependem de audiências para sobreviverem tendem a canalizar a atenção dos seus públicos para os “produtos” que lhes dão mais rentabilidade. Assim, sendo um mal necessário e indispensável na sociedade actual, devem ser regulados e vigiados por entidades competentes para tal: os diversos Provedores dos consumidores. Os mass media são um dos principais facilitadores da globalização. A globalização caracteriza-se pela partilha, entre todos ou a maior parte dos países, do conhecimento, mercados, culturas, língua, informação, medos, preconceitos, paixões, etc… e, assim, a globalização, quanto à transmissão e difusão de valores, funciona ao mesmo tempo como um elemento facilitador (porque ajuda) da difusão e um elemento transmissor de influências externas que “contaminam” os valores locais. A pluralidade de valores e culturas representa o grande número que existe de povos, regiões e respectivas especificidades próprias a que se chama de “cultura” e derivando dos hábitos, costumes e crenças dos povos, resultam ou desenvolvem-se os chamados valores morais ou éticos de cada povo ou população com laços próprios. A crise de valores que se apregoa tem a ver com o efeito que a globalização provoca na difusão, disseminação e proliferação de valores provocando a que a sua mistura e dificultando a correcta identificação, por parte do indivíduo, dos valores que deve assumir e manter como seus. Esta crise de valores, acaba por se concretizar numa crise de identidade dos valores de cada um e um “aplanar” desses mesmos valores. Resultando dessa dificuldade de identificação dos valores e da sua manutenção, acaba por se assistir ao aparecimento da co-habitação de valores que poderão ser considerados contraditórios entre si e, assim, contribuir para a tal crise de valores que é, conclui-se, uma crise de identidade de valores.

terça-feira, maio 12, 2009

O meu sonho "Tio Patinhas" já não se realizará...

Aqui há umas semanas, houve um grande jackpot no totoloto e, como sempre, há um ou dois pensamentos mais íntimos que me passam de fugida pela cabeça, alguns deles, restos de sonhos de infância alimentados por carradas de livros de desenhos animados. Incontornável, é o mergulho na "piscina" de moedas "à Tio Patinhas". Se me saíssem aqueles milhões todos, cometeria a excentricidade de mandar encher a sala de moedas só para dar umas "cacholadas" na "piscina à Tio Patinhas".

Pois bem, caí na real.

Um destes dias, ao ler o discurso do Doutor Pedro Arroja, proferido no 23º aniversário da UAL, dedicado ao tema "A Situação Financeira Actual", fiquei elucidado para a realidade; mesmo quealguma vez tenha o "jackpot", nunca chegarei a ver todas aquelas moedas juntas no chão da minha sala.

Aqui fica grande parte do discurso que me dei ao trabalho de transcrever à mão, por me parecer tão elucidativo quanto à situação actual mundial como aos motivos da mesma e às perspectivas futuras.

(esta transcrição e a sua publicação neste blog pessoal, com as devidas referências, foram comunicados tanto à Secretaria da UAL como ao Autor que não colocaram quaisquer objecções)

"Depois da Crise – a Situação Financeira Internacional Eu proponho-me … tratar do problema em três fases: A primeira, as origens desta crise. A que é que se deve esta crise, como nasceu? Quais os factores que para ela contribuíram? Em segundo lugar, o que é que a crise significa, qual o impacto que elaestá a ter e que vai ter na vida de todos nós? Como é que a crise se manifesta do ponto de vista financeiro, do ponto de vista económico e, por fim, do ponto de vista da nossa vida diária. E em terceiro lugar, perspectivar os efeitos que esta crise terá nofuturo. Como é que será o nosso futuro? Quer a nível internacional, quer do ponto de vista nacional, genuinamente português. Como é queserão, por outras palavras, os próximos dez anos? Começo pelo diagnóstico: esta crise que desabou sensivelmente neste ano de 2008 sobre toda a economia internacional, mas com os sinais maisfortes, os desencadeados nos Estados Unidos e, agora, na Europa Ocidental, representa a convergência de vários factores que se foram acumulando ao longo dos anos, alguns têm já décadas, e que estavam destinados, de algum modo e algum dia, a produzir uma crise conclusiva como esta. Por outras palavras, estes factores estava destinados a juntarem-se como uma intensidade tal que a crise seria inevitável e possuindo grande intensidade. E esse dia chegou neste ano de 2008, com maior intensidade a partir de Setembro, inicialmente nos mercados financeiros, as bolsas caíram, entretanto, entre 40 a 50% - algumas até mais - mas as bolsas são mecanismos de desconto, elas antecipam aquilo que vai acontecer na chamada Economia Real: no nível de emprego, no PIB, nas empresas, etc. Esta segunda ordens de efeitos, os efeitos propriamente económicos, esses estão ainda no início. Estão agora a produzir-se já com maior intensidade, como é normal, nos Estados Unidos, tendo uma economia mais flexível normalmente dá também os primeiros sinais, e em segundo lugar, na Europa sob a forma do desemprego acrescido, sob a forma de dificuldades acrescidas de crédito, etc. Os dois principais factores que contribuíram para a crise são muito antigos e ocorreram em 1971, portanto há 37 anos. Foi a suspensão da convertibilidade do dólar em relação ao ouro e a alteração que então seproduziu no arranjo que tinha saído da 2ª Guerra Mundial e que era conhecido como o sistema de Brentton Woods, tratando-se do sistema monetário criado em 1946 com o acordo dos principais países, incluindo Portugal, e que basicamente consistia no seguinte: o dinheiro ou notas que nós utilizamos, no nosso caso era o Escudo, no caso dos Americanos, o dólar, só poderia ser emitido em exclusivo pelos respectivos bancos centrais.

No caso dos Estados Unidos, contra o ouro, quer dizer, o Banco Central Americano, chamado Reserva Federal, punha dólares cá fora guardando ouro, e isso significava que o montante de dólares que estava em circulação, nos Estados Unidos e no resto do mundo, tinham o correspondente valor em ouro nas reservas federais que eram mantidas no forte Knox.

Todos os outros países (Alemanha, Espanha, Portugal, etc.) emitiam as suas notas guardando as correspondentes reservas ou em ouro ou em dólares. O sistema funcionava, portanto, em última instância baseado no ouro: todas as notas que estavam em circulação tinham em última instância uma correspondência no ouro.

No caso dos dólares, essa correspondência era imediata. Quanto às outras moedas - como o escudo - uma vez que eram emitidas ou contra o ouro ou contra dólares, e os Bancos Centrais dos respectivos países podiam pedir à Reserva Federal americana a sua conversão em ouro, verificava-se que a emissão de notas por todo o mundo estava em última instância baseada no ouro.

A partir de 1960, e sobretudo com a administração Kennedy, os americanos decidiram adoptar políticas económicas expansionistas para aumentarem o nível de vida da sua população. Uma das mais célebres foi a chamada "Regulation Q", em que as taxas de juro eram fixadas arbitrariamente por lei abaixo daqueles que seria o seu valor de mercado a fim de permitir aos cidadãos americanos tomar mais facilmente dinheiro de empréstimos para comprarem casas, automóveis, enfim, melhorarem o seu nível de vida.

Ao mesmo tempo, os Estados Unidos estavam a financiar a Guerra do Vietname com pura expansão monetária. A primeira política levou a que muitos dólares acabassem na Europa, porque quem os tinha podia aplicá-los nos Estados Unidos, onde as taxas de juro eram artificialmente baixas, ou então podia aplicá-los na Europa, nos bancos, em depósitos, em obrigações dos Estados europeus, que davamrendimentos mais elevados (as taxas de juro eram mais elevadas). Então,um grande fluxo de dólares foi correndo nos finais dos anos 60 para a Europa, sobretudo para a Alemanha. Os bancos alemães recebiam esses dólares, trocavam-nos no seu Banco Central por marcos, porque, naturalmente, conduziam os seus negócios em marcos e não em dólares. O resultado foi uma acumulação extraordinária de dólares no Banco Central alemão, que culminou em 1961. Cumprindo as regras do sistema Brentton Woods, o Bundesbank pediu ao Banco Central americano que convertesse os dólares em ouro. Por outras palavras: "tomem lá os dólares e enviem ouro". Foi nessa altura que o Presidente Nixon se recusou a fazê-lo.

Os americanos tinham, de algum modo, violado as regras do sistema, tinham andado durante os anos 60 a emitir mais dólares do que o ouro que tinham em reserva, para lhes fazer face, obviamente sem dizer nada a ninguém. Quando finalmente tiveram de revelar que não tinham ouro suficiente para converter os dólares na posse dos europeus, sobretudo dos alemães, que assim o reclamavam, quebrou-se o vínculo da emissão monetária ao ouro. Cada Banco central passou a emitir as suas notas contra nada.

  O ouro perdeu o seu carácter monetário e a emissão monetária passou a fazer-se contra título de dívida pública. O Banco Central emitia notas, comprando títulos de dívida do estado, porque entretanto todos os Estados estavam em défice, precisando de dinheiro para se financiar. Basicamente, os Estados nacionais passaram a ir ao Banco Central, recebiam as notas, que eram produzidas pela máquina impressora, e entregavam declarações de dívida em troca.

Em suma, as notas passaram a estar garantidas por papéis.

Esse foi o primeiro factor.

O segundo, e decisivo factor, ocorreu no sistema bancário comercial.

Esta crise financeira começa por ser uma grande crise na banca e o segundo factor ocorre de forma paralela do seguinte modo: o negócio de um banco comercial, basicamente, é o de aceitar depósitos, guardar como reserva uma parte dos depósitos - eu vou supor que são 20% - e emprestar o restante. E o juro que cobra sobre os restantes, sobre os 80%, dá-lhe para pagar o juro que paga aos seus depositantes, que é mais baixo, deixa-lhe um diferencial, e é nesse diferencial que os bancos cobrem as suas despesas de funcionamento e geram um lucro. Evidentemente que um banco se torna mais lucrativo quanto menor for a taxa de reservas que tem de manter nos depósitos.

Se esta taxa for de 20% e esta taxa é fixada por lei, o banco pode emprestar 80% dos depósitos. Mas se a taxa for apenas de 5%, o banco pode emprestar 95% dos depósitos e, portanto, cobrar juros de 95% dos depósitos e ter mais lucros.

Existe, portanto, no sistema concorrencial e livre da banca, um incentivo a que, a prazo, as taxas de reserva que os bancos mantêm sobre os depósitos tendam a diminuir. E embora essas taxas sejam fixadas por lei, é inevitável que o sistema bancários e os banqueiros, com o tempo, tentarão influenciar os políticos para lhes permitir manter reservas sobre os depósitos ao nível mais baixo possível.

Antes de prosseguir, o ponto que quero evidenciar é o de que se todos os clientes forem ao banco ao mesmo tempo levantar os seus depósitos, o dinheiro não está lá. Na verdade, só lá está uma pequena parte para fazer face aos levantamentos normais.

Comecei por supor taxas de reserva na ordem dos 20% e, de facto, há 30 ou 40 anos essas eram as taxas de reservas que os bancos mantinham. Hoje as taxas de reservas para os países da zona Euro, incluindo Portugal, são fixadas pelo Banco Central Europeu, e são tão mínimas como 2%. É esse o montante que os bancos comerciais devem manter como reservas em relação aos depósitos - e só para depósitos à ordem -porque se forem depósitos a prazo as taxas são mesmo zero.

Por outras palavras: um depósito de cem pode ser imediatamente utilizado por um banco para um empréstimo de cem, o que cria uma situação muito curiosa. Basta que alguns clientes se agitem e vão ao banco reclamar os seus depósitos para que eles literalmente não estejam lá, o banco não tenha sequer um cêntimo desses depósitos e não lhe seja fácil - uma vez que os depósitos são aplicados em empréstimos a longo prazo, como o crédito à habitação - reaver esse dinheiro rapidamente para satisfazer os pedidos de levantamentos dos seus clientes.

Nalguns países, como a Grã-Bretanha, a taxa de reserva para todos os depósitos é zero, o que significa que os bancos podem emprestar literalmente tudo aquilo que recebem como depósitos, criando uma situação que pode ser dramática no caso de uma pequena quebra de confiança no sistema bancário, e que é a seguinte: basta que um pequeno número de depositantes, sobretudo se forem depositantes importantes para o banco, reclame o seu dinheiro para que ele não o tenha.

Esta é uma das características da crise financeira actual. Portanto, a redução das taxas de reserva obrigatórias, que nalguns países é zero, em Portugal como nos outros países da Zona Euro é praticamente zero, levou a uma situação em que qualquer abalo na confiança dos depositantes que os levasse ao banco em conjunto, mesmo num pequeno número, levantar os seus depósitos, produzirá um resultado inevitável: os bancos não tinham lá o dinheiro. Como é que surgiu esse abalo na confiança? Começou por aparecer em Setembro, com a chamada crise subprime.

O que foi a crise subprime? Basicamente, os bancos incentivados pelo processo da concorrência, têm interesse em emprestar, no limite, todo o dinheiro que recebem de depósitos.

E emprestá-lo a quem? Começaram por emprestar a clientes que tinham um bom ranking, clientes de baixo risco, ou pelo menos ricos, das classes alta e média-alta, que com elevado grau de probabilidade de que iriam pagar os empréstimos que estava a contrair. Empréstimo para comprar casa, às vezes para investir na Bolsa, para comprar automóvel, enfim, para os empréstimos que são concedidos pelas razões que nos levam frequentemente ao banco. Quando esse segmento de mercado dos clientes de baixo risco se esgotou, quando essas pessoas já tinham os empréstimos, e os cartões de crédito que queriam, a actividade bancária precisava de continuar a crescer.

Aos gestores dos bancos exigia-se, perante os olhos dos accionistas, que o negócio continuasse a crescer, que os números continuassem acrescer e então, tendo-se esgotado esse primeiro nível ou essa primeira massa de clientes, passou-se à segunda, àquela que já envolve algum risco. E quando se esgotar esta, o crescimento dos bancos passou afazer-se concedendo empréstimos àquelas pessoas que quem estivesse de fora podia razoavelmente dizer que essas pessoas não vão pagar os empréstimos que contraíram.

Existe em vídeo uma situação humorística descrevendo este processo: um negro do Alabama, nos Estados Unidos, está sentado à porta da sua barraca, desempregado, e um comercial de um banco passa e pergunta-lhe: "Olhe eu posso emprestar dinheiro para você fazer ou comprar casa." E ele muito admirado diz assim: "A mim? Que estou desempregado, já não tenho direito a nenhum benefício social, sou analfabeto e não tenho esperança de encontrar emprego, você empresta-me dinheiro?" E o banqueiro responde: "Empresto." É, evidentemente, a situação limite que um dia vai desembocar numa crise. Estes devedores de segunda qualidade (subprime) um dia vão deixar de pagar em massa os seus empréstimos aos bancos. E quando esse fenómeno aparecer nos jornais, que há empréstimos que os bancos concederam a clientes de alto risco que não estão a ser pagos, a próxima ideia que vem ao espírito do depositante é a de saber se o seu dinheiro está seguro.

E o passo seguinte é os depositantes começarem a correr aos bancos. E a partir do momento em que começarem a correr aos bancos, mesmo que as reservas fossem de 10%. rapidamente o dinheiro que os bancos têm para satisfazer os levantamentos dos depositantes fica esgotado. O restante, que representa a maior parte dos depósitos, está aplicado em empréstimos, muitos de baixa qualidade, outros de média ou alta qualidade, mas o facto permanece.

A partir deste momento, os bancos não podem honrar mais os pedidos de levantamento dos depósitos dos seus clientes. O banco está então numa situação de insolvência, se não mesmo de falência.

Este é o facto dominante desta crise financeira. A situação actual dos bancos é de insolvência generalizada. Se não fossem os Estados, a maioria dos bancos do mundo estava neste momento deportas fechadas e as pessoas estariam a fazer fila à porta de cada um para ver se conseguiam recuperar os seus depósitos. O que é que poderá acontecer a seguir, se as pessoas continuarem a fazer levantamentos e o estado, ele próprio, não tiver dinheiro suficiente para garantir os depósitos?

Neste caso só há uma solução: a emissão monetária. Porém, antes essa solução era fácil, bastando ao Estado ordenar ao Banco Central que emitisse notas por troca com títulos da dívida pública. Hoje porém, na Zona Euro, os Estados nacionais já não têm esse poder. Ele está agora com o Banco Central Europeu e exige uma solução concertada entre os Estados membros.

Eu penso que não chegaremos a esta situação extrema, embora exista já um país em que a crise, tendo em primeiro lugar confrontado os bancos, e tendo vencido os bancos, levou à intervenção do Estado. E, depois, o Estado foi incapaz de garantir os depósitos dos Bancos. Este país foi a Islândia, até ao ano passado o país mais desenvolvido do mundo. Portanto já não são só os bancos islandeses que estão em situação de falência técnica. Em consequência, a coroa islandesa desvalorizou mais de 50%.

Será que a crise vai vencer os Estados como aconteceu na Islândia?

Seria o pior dos cenários. Tal levaria a que os Estados tivessem que se concertar para emitir notas para injectar no sistema bancário em quantidade suficiente para permitir os bancos honrarem os depósitos dos cidadãos. O resultado seria uma hiper-inflação, mas penso que não é este o cenário mais provável.

O mais provável é o um cenário diferente e que se chama deflação.

Nenhum de nós provavelmente sabe, porque nunca a viveu, o que é umadeflação. Nós já vivemos períodos de inflação, em Portugal tem havido sempre inflação, seguramente desde que nós nascemos o que tem havido é inflação: aumento persistente dos preços. Nalguns períodos menos, como agora, noutros mais como nos anos 80 em que a taxa de inflação chegou a alcançar os 30%. O que nós não conhecemos ou vivemos é uma situação de deflação. Aconteceu a última vez em Portugal, como nos outros países daEuropa, durante os anos 20 e 30 e é uma situação de baixa generalizada e persistente dos preços, os preços caíram 20% entre 1925 e 1938.

A propósito dos anos 20 e 30, eu penso que a crise actual só em paralelo na Grande Depressão desse tempo e que será tão intensa ou mais intensa do que ela. A única diferença é que o nível de riqueza e desenvolvimento da sociedade é maior do que era na altura. Portanto, mesmo que o nível de vida baixe bastante, é provável que fiquemos ainda acima das condições de sobrevivência em que viveram os nossos antepassados dos anos 20 e 30.

Como é que se caracteriza esta crise?

Primeiro: a característica dominante é uma situação de deflação, é a falta generalizada de dinheiro líquido: notas. Quem tiver dinheiro, liquidez, notas ou depósitos à ordem ou a prazo em bancos estará bem.

Pelo contrário, quem não tiver liquidez ou dever dinheiro, empresas ou particulares, nos próximos anos estará em situação muito difícil. No caso das empresas, correm o risco de fechar as portas. Muitas empresas que viviam do crédito bancários, estão endividadas e neste momento os bancos estão eles próprios desesperados por dinheiro, não o possuem para emprestar - porque, no fim de contas, foram os empréstimos a fonte das dificuldades actuais. Todo o dinheiro que os bancos conseguem recuperar é para reconstituir as suas reservas, não para a concessão de crédito.

Os próprios bancos andam a pedir dinheiro, repito, não para emprestar mas para reconstituírem as suas próprias reservas, para fazer face aos levantamentos dos depósitos por parte dos seus clientes.

Portanto, a escassez de dinheiro será a marca principal desta crise. E como falta dinheiro, as pessoas não compram: não compram casas, não compraram roupas, não vão tantas vezes ao restaurante. Há um défice de procura, e a lei da procura e da oferta diz que quando a procura baixa os preços tendem a baixar.

Portanto, o que vai caracterizar os próximos anos é a queda generalizada dos preços. Já neste momento, os preços ainda estão a subir mas o ritmo já desacelerou. Continua a haver uma subida de preços, uma inflação, que é neste momento de 1 a 2%; em breve nós teremos descidas dos preços: a desinflação relativa ou deflação: vão cair os preços das casas, das refeições, vai cair o preço dos automóveis, vai cair o preço de tudo, incluindo os salários, que são opreço do trabalho.

O próprio poder dos sindicatos de nada valerá à queda dos salários, porque a alternativa é o desemprego. Uma empresa, vendendo um produto cujo preço baixa continuadamente, não pode manter os salários no mesmo nível, sob pena de ir à falência. Baixa dos salários e desemprego serão duas consequências da crise.

E quanto ao nível das taxas de juro? Vai baixar. É provável até que dentro de um ou dois anos as taxas de juro sejam quase zero, mas ainda assim os bancos não emprestam dinheiro, pela razão que já referi, a de todo o dinheiro que os bancos recuperem ser para refazer as suas reservas, ao mesmo tempo que o público está tão endividado e com tanta dificuldade em pagar os empréstimos que já contraiu no passado, que mesmo com as taxas de juro próximas de zero não desejará endividar-se mais.

Portanto, as consequências principais da crise são escassez de dinheiro; quebra generalizada dos preços; queda generalizada dos salários; quedas das taxas de juro, mas ainda assim concessão muito difícil de crédito por parte dos bancos, e muito pouco desejo do público e das empresas para se endividarem ainda mais; aumento do desemprego; e queda continuada das Bolsas.

Na minha opinião a crise pode durar entre cinco a dez anos.

No caso da Bolsa, aquilo que ela caiu no último ano, praticamente para metade, não será recuperado nem no prazo de dez anos. É possível ter uma ideia utilizando a Bolsa de Nova Iorque da década de 30; ela atingiu o máximo em 1929, antes do grande Crash, mas só voltou a atingir o mesmo nível 25 anos depois, em 1954. Hoje as coisas são mais rápidas: os mecanismos que as economias possuem, em parte por causa da revolução tecnológica da informação, permitem ajustamentos mais rápidos. Se naquela altura demorou 25 anos, eu estou convencido que a crise actual durará pelo menos dez.

O que é certo é que os próximos anos vão ser muito difíceis, não especialmente para Portugal; vai ser assim para todos os países do mundo. Também assim para Portugal, talvez um pouco mais difícil, porque as condições em que a crise apanhou o país foram também relativamente desfavoráveis face aos outros países da Europa. Tratarei no entanto, mais adiante, a situação portuguesa.

Em relação à crise actual, se quisermos por numa outra perspectiva, é possível dizer que andámos a sobre consumir ao longo de muitos anos,com dinheiro que era produzido do nada, com crédito fácil. Comprámos casas, às vezes a segunda casa, comprámos automóveis, fizemos muitas viagens, utilizámos muitas vezes o cartão de crédito, andámos todos, o mundo inteiro, a viver acima das nossas possibilidades. Agora vamos passar para um período em que vamos pagar a factura e vamos ter de nos ajustar à realidade.

Esses ajustamentos são normalmente dolorosos, vão passar por uma revolução generalizada do nosso nível de vida, através de mais desemprego, redução dos salários, etc. Portanto, vai ser um período apertado, quer para as famílias, quer para as empresas, quer para o Estado.

Gostaria no entanto de retomar a analogia com a Grande Depressão, porque, de facto, esta situação só encontra paralelo na Grande Depressão dos anos 20-30 e no Japão nos últimos 20 anos. Eu vou no entanto regressar à Grande Depressão porque a situação recente do Japão foi um caso isolado, ao passo que a Grande Depressão foi global, como a actual está a ser, atingindo a América e a Europa mas agora propagando-se a todos os outros países.

Nada se vai salvar da baixa generalizada dos preços, incluindo as matérias-primas e o petróleo. Os preços de todos os bens já caíram e vão continuar a cair, e os próximos dois anos vão ser muito mais difíceis do que 2008. Em particular, para todo o mundo, 2009 vai ser muito mais difícil do que 2008 porque só agora os efeitos da economia real começam a revelar-se no desemprego, nas dificuldades de financiamento das empresas, no aumento da despesa pública especialmente despesas sociais, como os subsídios de desemprego.

Eu gostava, no entanto de mencionar uma outra faceta da Grande Depressão que julgo que num grau menos intenso vai ocorrer também agora, na realidade já está a ocorrer. É que as dificuldades dos anos 20 e dos anos 30 foram acompanhadas em todos os países da Europa ocidental de um desprestígio das instituições democráticas que levaram ao poder soluções menos democráticas, caracterizadas pelo autoritarismo. Salazar chegou ao poder como Ministro das Finanças logoem 1926, e como Primeiro-Ministro em 1932. Em Espanha ocorreu aditadura, primeiro de Primo de Rivera, nos anos 20, e depois de Franco nos anos 30. Em Itália surgiu Mussolini e, na Alemanha, Hitler chegou ao poder em 1933. Estou convencido de que não voltaremos a soluções autoritárias dessa natureza. Mas seguramente que o desprestígio das instituições democráticas é também agora inevitável, porque elas também contribuíram para a crise actual. A crise não é só o resultado das forças do mercado e dos banqueiros. Os Estados nacionais também se endividaram enquanto puderam e encorajaram os bancos a conceder o crédito fácil para que a população ficasse feliz e os poderes democráticos se pudessem fazer eleger.

A crise não é só culpa dos banqueiros e do sector privado da economia ou do capitalismo. É também culpa da democracia. Também aqui foram necessários dois, como normalmente é o caso, foram necessários dois para dançar o tango um sistema económico altamente flexível e também um sistema político que encorajava o facilitismo da concessão de crédito e de que ele próprio dava o exemplo sobre endividando-se – todos os Estados nacionais estão endividados. E através dos seus Bancos Centrais, que sempre foram instituições públicas – produziram dinheiro em excesso, literalmente, produziram dinheiro a partir do ar.

Portanto, a crise não é só do capitalismo, como nos anos 20 e 30 não foi só uma crise do sistema económico. É também uma crise da democracia, como foi na altura, e isso pagou-se, em parte, ou com interrupções da democracia ou com regimes democráticos bastante mais autoritários. Não é de excluir que o mesmo possa acontecer agora.

Em relação a Portugal, nós temos uma grande dificuldade em fazer reformas… A razão é antiga; quando se deu a Reforma Religiosa do século XVI, Portugal e Espanha alinharam ao lado da Contra-Reforma. Portanto, os portugueses são é especialistas na contra-reforma, a boicotar reformas e não propriamente a fazer reformas. E muitas das reformas de que nós permanentemente falamos e nunca realizamos, como a reforma da Administração Pública, a reforma da Segurança Social, a reforma da Justiça, resultam parcialmente da natureza anti-reformista da nossa cultura.

Eu penso que a alteração económica e social que a crise vai trazer, vai produzir precisamente essas reformas no sistema político e nas instituições – a reforma dos partidos, por exemplo – de que se fala em Portugal há muito tempo e nunca foi feita. Em clima de estabilidade os portugueses nunca fizeram reformas. As reformas em Portugal ou vem depois de transformações abruptas na sociedade ou vêm impostas de fora, como vieram as reformas económicas dos anos 90 – impostas pela União Europeia. De outra maneira, as reformas no país só vêm em períodos de crise e de alguma ruptura social.

Nos últimos sete anos, Portugal cresceu a uma taxa muito baixa: cerca de 1,5% ao ano, foi a média nos últimos sete anos, que nos estava a afastar de novos dos padrões da União Europeia, a qual em média estava a crescer 2,5% ao ano. Portanto, nós estávamo-nos a tornar, em termos relativos, mais pobres.

A crise apanhou Portugal nessa situação de fraqueza relativa e, portanto, corre-se o risco de, estando nós já numa pequena recessão ao longo dos últimos sete anos e a crescer menos que os outros países, agora que toda a economia internacional estagnou, Portugal fique aindanuma posição mais fragilizada.

E qual era a nossa principal fragilidade? O défice da balança de transacções correntes. E de que resulta esta situação? Do facto de Portugal ao longo dos últimos anos ter andado a importar mais do que aquilo que exportou, a viver à custa dos outros países e um dia os outros vão exigir a factura. Trata-se, em suma, de um problema de endividamento crescente do país face ao estrangeiro.

A economia portuguesa, em resultado da acumulação desses défices de transacções correntes e em resultado da acumulação dos défices do Estado, somou uma dívida considerável: uma parte é privada, somo nós portugueses que nas nossas decisões consumimos mais do que o que exportamos. Outra é dívida pública do Estado português, que endividando-se todos os anos, uma parte do financiamento vai buscar ao estrangeiro. Portugal tem hoje uma dívida externa enorme: cerca de 350 mil milhões de euros, cerca de duas vezes e meia o PIB português.

Desta dívida externa a maior fatia pertence aos bancos, a segunda ao Estado e o restante a grandes empresas.

Só para pagar os juros desta dívida externa é difícil, estando o país muito endividado. Quando uma instituição portuguesa se endivida no exterior para uma taxa de juros mais elevada que uma instituição alemã, por exemplo, porque as instituições portuguesas são devedoras menos fiáveis nos mercados internacionais. Existe, portanto, um spread da dívida portuguesa face à alemã que é cerca de 1,5%. Portanto, dentro da Zona Euro, Portugal encontra-se no grupo dos países mais fortemente endividados, e por isso vai sofrer mais. Numa situação internacional em que o crédito não abunda, ninguém está disposto a emprestar dinheiro facilmente e Portugal tem hábitos de consumo acima das suas possibilidades.

O que vai acontecer é que o choque vai ser maior para o país, nosentido de se ajustar à realidade. Ao ajustarmo-nos a viver às nossas possibilidades, nós eu temos andado a viver acima delas, vamos sofrer um choque duro. E esse choque, portanto, vai ser acompanhado por aqueles efeitos que já descrevi: desemprego, falências, emigração, que serão mais intensas em Portugal.

Eu gostaria, no entanto, de deixar uma palavra de esperança para nós portugueses. É que, embora a situação económica se revele bastante má nos próximos anos, os portugueses, de algum modo, desde há pelo menos 250 anos que estão habituados a viver em crise. É por isso verdade que os portugueses têm muito mais flexibilidade para lidar com crises do que têm os alemães ou os ingleses, menos habituados.

Portanto, os próximos anos, embora sejam muito difíceis, vão ser anos muito criativos em Portugal. Em particular, parece-me certo que é sob os efeitos da crise que Portugal irá fazer as reformas que não foram feitas no passado.

Portanto, o sistema económico e político acabará por se reformar para melhor sob a pressão das circunstâncias. Do ponto de vista económico, Portugal vai ter de encontrar maneiras de compensar esse desemprego acrescido, com maior criatividade. Os portugueses foram sempre melhores na adversidade, foram sempre mais criativos em períodos de crise e, portanto, eu olho para um futuro próximo, para os próximos dez anos, com grande curiosidade, grande estímulo e também pronto a participar naquilo que, na minha opinião, no meio das grandes dificuldades, vai ser um período enormemente criativo e vivo na sociedade portuguesa"

 

 

 

Por isto eu realizei que já não poderei cumprir o meu sonho de mergulhar "à Tio Patinhas" numa sala cheia de moedas... Poderei ter uma conta bancária com uns números jeitosos mas o dinheiro vivo, nem vê-lo.

Mas talvez isso me poupe algumas dores de cabeça inesperadas.  ;-)

sábado, abril 11, 2009

"Os profissionais das rezas são uns incompetentes!"

Reclamou um idoso, ontem, para a câmara de uma estação de televisão que fazia a cobertura dos efeitos do terramoto ocorrido recentemente em L'Aquila, Itália. E continuou, "Estão aí sacerdotes, bispos, monsenhores, São Paulo, São Bento, representantes do Vaticano ...e Jesus manda-nos um terramoto... São uns incompetentes!" Chorava o velho. Eu já desconfiava desde hà muito tempo. Sempre me fez bastante confusão porque é que estes cataclismos atingem, indiscriminadamente, inocentes que não podem ter merecido tal castigo. Refiro-me aos pequenos caixões brancos por cima dos caixões dos familiares...

sábado, outubro 25, 2008

Outro desafio...

Esta semana, ainda eu todo satisfeito da vida com o sucesso em parar de fumar, fiquei saber que tenho outro desafio a vencer: Colesterol. Estou acima dos 250... Este é capaz de ser mais difícil de vencer porque, o tabaco era evidente que só podia fazer mal... aquele fumo todo a entrar-nos pela boca a dentro... Agora a comidinha boa, saborosa e condimentada... como é que isso pode fazer mal? Bem, logo à noite já vou trocar com a Mila; eu fico com o arroz de tamboril e ela leva o meu assado de porco preto... Bolas... :-(

quarta-feira, fevereiro 20, 2008

O 'meu' Windows endoideceu?!



...ou está na altura de formatar o disco?


Depois, quando apagava um ficheiro, desapareciam aos pares. Claro! Tinham mesmo nome, extensão, tamanho e data/hora de criação e estavam na mesma pasta...

domingo, outubro 21, 2007

Serei capaz?

Hoje decidi deixar de fumar. Assim, sem mais. Hà mais de uma semana que ando adoentado (até estive para não ir ao último meetup) ; já tive febre, melhoras, febre outra vez, garganta inflamada, rinite, melhoras, tosse, esta sensação de que anda algo no peito e na garganta que não me deixa respirar... Hoje fui dar mais uma volta de BTT por Monsanto e realmente não é compatível com o fumar. Nunca tinha tomado esta decisão. Coloquei a data de hoje no maço de tabaco e fechei-o com fita cola. Vamos lá a ver se consigo. A minha família e os meus amigos estão autorizados a darem-me uma tareia se me virem fraquejar. :-)

terça-feira, outubro 16, 2007

Divórcio?

Um destes dias recebi de um de vós (obrigado!) um mail que me convidava a analisar e assinar um petição. Trata-se de criar alguma pressão sobre as autoridades fiscais de modo a repararem na situação de injustiça fiscal que resulta de haver possibilidade de os pais divorciados poderem descontar um determinado valor para pensão de alimentos e os casais que mantêm casados e os pais/mães viúvos não o poderem fazer. Reclama-se igual tratamento, ou seja, ser possível descontar a mesma importância do total dos rendimentos sujeitos a imposto, para que melhor se possa fazer frente às despesas com os filhos (alimentação, vestuário, etc...). Confesso que nunca tinha pensado no assunto e esta petição - mais toda a documentação e fundamentação que a acompanha - me convenceu. Assim, além de a ter assinado, divulgo-a aqui para ajudar ao seu (difícil mas não impossível) sucesso;

Petição contra a discriminação

dos pais casados e viúvos em sede de IRS

sábado, junho 16, 2007

Opostos na Reciclagem

Somos mesmo um País de contradições. De um lado; Soube que vai continuar a campanha de recolha de radiografias, sem valor clínico, de modo a serem recicladas, transformando-se em prata, cuja venda reverte a favor da AMI para as suas acções humanitárias. Além deste facto, está-se a proteger o ambiente ao evitar que as radiografias sejam lançadas no lixo comum. Vou continuar a cumprir. De outro lado; (um caso já com algum tempo) " A empresa que faz a recolha de medicamentos fora de prazo nas farmácias, tem estado a operar à margem da lei. Além de estar sem licença há mais de um ano, admite que nunca fez reciclagem. Os medicamentos e respectivas embalagens acabam queimados nas incineradoras de resíduos urbanos sem qualquer tratamento. O responsável da empresa Valormed, alega que, mesmo a operar sem licença, terá cobertura do Governo para a sua situação. A empresa é propriedade da Associação Nacional de Farmácias, associação da indústria farmacêutica, grossistas e distribuidores, ou seja, todos os intervenientes no negócio do medicamento. ... "

in Farmácia.com.pt

Eu cumpria mas agora tenho dúvidas...

segunda-feira, maio 21, 2007

O subsconsciente é tramado...

"Queremos um país cada vez mais pobre!"
Sócrates, ontém num discurso de boas vindas aos imigrantes que acabavam de se naturalizar Portugueses.

segunda-feira, maio 07, 2007

As notícias...

Como cidadão mais ou menos atento vou, semana a semana, notando noticias que me tocam de alguma forma; umas que me irritam, outras que me chocam outras que me comóvem... o normal. Nem sempre tenho tempo para escrever algo sobre os assuntos mas ficam cá dentro, às voltas... Hà uns anos atrás chocou-me imenso o caso dos Polícias que separaram a cabeça do corpo de um indivíduo para tentarem disfarçar o excesso de pancada que lhe deram numa esquadra da PSP. Mais recentemente, a proliferação de casos de cães agressivos que atacam pessoas - horroriza-me a imaginação do que terá sofrido aquela senhora de meia-idade, quando estava a ser atacada por 4 rotweilers que fugiram à irresponsabilidade do dono. Esta semana foi o caso da menina inglesa que desapareceu do quarto onde estava com os seus dois irmãos. Não sei como vai acabar - e, sinceramente receio que não acabe bem - mas acho que foi uma tamanha irresponsabilidade dos pais deixarem 3 crianças menores sózinhas no quarto enquanto eles jantavam. Mesmo que fossem verificar a situação a cada 10 ou 15 mintos, sempre eram 10 minutos que os filhos deles estavam sem vigilância. Ainda me lembro bem dos cuidados que tinhamos com o Filipe quando tinha essas idades. Infelizmente para a pequena Madeleine, os pais dela não são tão stressados com a segurança dos filhos como nós éramos...

quarta-feira, março 07, 2007

A Gás

Deu na TV ontem e hoje na rádio uma reportagem sobre carros movidos a gás e híbridos (gás + electricidade). Referiram as diversas vantagens destacando; o benefício para o ambiente por ser uma combustível não poluente, o rendimento equivalente aos outros, a economia de combustível e das desvantagens apresentadas pela pouca autonomia e inexistente rede de reabastecimento que permita usar esses veículos tanto nas cidades grandes como nas estradas do interior. Esqueceram-se de referir outra desvantagem; a impossibilidade de estacionamento em locais fechados... Confesso que já me passou pela cabeça de que o meu próximo carro poderia ser movido a gás, ainda para mais agora que a tecnologia evoluiu e o rendimento deles é equivalente aos movidos a gasóleo. Mas, enquanto os principais obstáculos (rede de abastecimento e possibilidade de estacionamento em garagens/parques cobertos) não forem resolvidos, é difícil estes veículos começarem a ser encarados como uma verdadeira opção para todas a gente. É pena, especialmente para o Ambiente...

quarta-feira, outubro 25, 2006

Mas estes Srs. estão doidos?!

(e ninguém lhes puxa as orelhas como a minha Avó me fazia) A crescente animosidade entre os dirigentes de dois grandes clubes de Portugal, que se tem verificado recentemente por motivo da aproximação de um jogo de futebol, com ataques e contra-ataques pessoais, vai resultar em quê? Barafunda, pancadaria entre o público, autocarros apedrejados, áreas de serviço assaltadas, insultos, pressão sobre a arbitragem, etc... Sou adepto de um desses clubes mas não me revejo em nada do que tem sido dito por esses Srs. e, se pensasse em ir ao jogo no próximo fim de semana, a animosidade que foi lançada para o ar tinha-me feito mudar de opinião, certamente. Ir a um estádio para me arriscar a ser espancado por hooligans? Ou pelo Corpo de Intervenção? Não contem comigo. ...e podem continuar a matar a "galinha dos ovos de ouro"...

segunda-feira, outubro 02, 2006

Desmoralizado...

Há dias convocaram-me para participar na contagem física do stock no armazem de uma das empresas do grupo. A contagem terá lugar no proximo fim-de-semana e eu fui "convidado" para ir participar. Vou no Domingo, dia 8. Estranhei o gesto, até porque costumo dar imensas horas de trabalho às empresas do grupo, trabalhando quase todos os dias úteis à noite, em casa, e até nos fins de semana, conforme aconteceu este último em que trabalhei durante a noite de Sexta, toda a tarde de Sábado e a manhã de Domingo. E, isto, continuando a cumprir o horario regular e tentando sempre ser produtivo durante o mesmo - não trabalho fora de horas para compensar o horario normal mas sim para somar, acrescentar valor à minha produtividade. Mas mesmo assim, arrolaram-me para ir contar caixas de medicamentos e lançar movimentos no sistema... Confesso que fiquei desmoralizado pelo facto mas, uma vez que me referenciaram, não podia recusar. O medo do desemprego é uma grande arma contra quem trabalha por conta de outro. Se ainda ao menos me tivessem pedido para dar um dia de trabalho, fazendo o que é a minha especialidade - desenvolver aplicações - de modo a acelerar o andamento de projectos em curso, fá-lo-ia de muito maior grado, apesar de ser isso mesmo que passo todo o tempo "particular" a fazer... Lá se vai o evento de Geocaching, dedicado à geologia, na praia das Avencas, e ao qual eu já tinha planeado ir com o meu filho, o meu sobrinho e o nosso cão.

quinta-feira, setembro 28, 2006

A (in)Segurança Social

Faço descontos para a Segurança Social desde hà 30 anos completados em Agosto e sem qualquer interrupção. Devido à minha idade, ainda terei que trabalhar mais 19 anos... ...será que haverá reforma para mim quando chegar a minha vez?

terça-feira, setembro 26, 2006

A espiral de qualquer coisa

Que dizer quando uma empresa começa a pedir aos seus colaboradores para darem um contributo extra, ficando a trabalhar até altas horas da noite para colocar o trabalho em dia e, depois, essa colaboração extra torna-se uma rotina de dias, semanas, meses... e parece não vir a ter fim? Um caso típico em que trabalhar muito não significa trabalhar bem. Hà colaboradores que começam a entrar no dilema entre precisarem do emprego para sustentar a família e fazerem valer o seu direito de ter uma vida com e para a família. Afinal, o trabalho devia ser um meio de subsistência e não a razão da sua existência. Toca-me.